Histórias do Astral

Histórias do Astral
 
            O chamado “desdobramento astral”, ao contrario do que muitos imaginam, não é algo comum. 
Em raras ocasiões pode ocorrer quase sempre com o auxilio de uma entidade astral. Mas há também o processo mediúnico de indução de quadros, onde é mostrado ao médium imagens e mensagens importantes, tanto a nível astral quanto determinados símbolos que são resgatados de seu interior, de seu inconsciente, por um mentor espiritual, seja ele um caboclo, pai-velho, criança ou exu.
A este processo denominamos transe astral.  
            Pode processar-se à noite (o mais comum), ou em médiuns mais tarimbados, através da profunda concentração, mesmo consciente. Nosso irmão Paulo, através de determinados transes, nos relata a historia que será contada em nossa revista. “Fenômeno interessante ocorreu-me na noite passada. Como em todas as noites anteriores, nestas ultimas semanas, não tenho dormido bem. Durante a noite acordo e me pego tentando dar respostas terrenas aos sonhos que tenho, porem nesta citada noite algo de diferente aconteceu. De repente senti-me quase consciente e meu corpo não físico, ou astral foi tomado por uma força estranha; essa força impossibilitava-me o movimento. Meu corpo ficou como que colado à cama. Tentava através de um impulso mover o braço, em vão. Por um momento achei que iria sucumbir a este fenômeno”.
            Como num estalo, apelei às forças espirituais que convivo em giras umbandísticas. Mentalizei uma oração mais ou menos nestes termos: “Valei-me Zamby, valei-me seu P. V., não permita que meu corpo físico seja sangrado e nem meu corpo astral danificado”.  Após a oração, gradualmente meu corpo foi ficando livre e novamente tinha controle de meus movimentos. Em seguida continuei deitado, meio amedrontado e aguardando o sono retornar. De repente em minha mente, começaram a surgir imagens, estranhas imagens para quem com elas não está habituado, compondo seqüencialmente uma história que era o seguinte: “O homem que surgia na penumbra, por entre o arvoredo que espantava a passarada, trazia em sua mão esquerda o lume faiscante que tinha o poder de vida e de morte. Caminhava a passos lentos, provocando o sopro do vento que uivava por entre as paredes que não existiam aos olhos nus. Seus olhos, um negro como o ônix, em sua opacidade nada transmitiam alem do medo; o outro vermelho como o fogo que queima nos grandes incêndios, em seu movimento nada transmitia alem da necessidade de correr para distante dele. Quando chegava trazia sempre à sua volta seres estranhos, figuras só vistas em filmes fantasmagóricos. Um pequeno, com olhos grandes, cabeça pontuda e de um pé só; outro com um pequeno olho da cor da ametista, tendo em cada uma de suas mãos apenas três dedos, quase não tinha pescoço e sua cabeça, também pontuda, só que menos acentuada que a do primeiro. Havia também outros dois que pareciam gêmeos em suas aparências, não se separavam, porem transmitiam a sensação de estarem sempre em desacordo”.

 


             Eram inúmeras criaturas que estavam com esse homem, mas essas quatro eram as que mais se destacavam. Aparentemente eram as preferidas deste inusitado senhor. Ele (o homem), chegava e o tempo parava, as folhas, as arvores, os insetos, tudo o que tinha vida recusava-se a se mover. Suas palavras, ressoavam como um trovão que tudo assustava. Dizia: “só venho quando chamado e quando aqui estou não perco a viagem, devendo cumprir o que foi solicitado e para tanto devo receber para isso, pois nem burro trabalha de graça.”
             Interessante foi notar que as palavras emitidas, não saiam pela boca, que permanecia fechada e sem movimento. O som provinha de tudo e do nada, não tinha origem mas estava lá. Aproximou-se do animal colocado à sua frente e com um movimento “mágico” o virou a um só golpe. Os demais….., foram misturados à essência do animal. Inclinou-se diante de toda aquela miscelânea de “coisas”  e inspirou profunda e solenemente. Nesse momento, como se uma névoa mista de cores o envolvesse, tendo a fantástica predominância das cores preta e vermelha que eram sugados por seus olhos com suas respectivas cores. As demais cores entravam por seus poros em todo o seu corpo.
            Depois de processado esse ritual, ele permite que as outras estranhas criaturas pudessem se refestelar com o que sobrou. As quatro que se destacaram foram as primeiras. A algazarra foi total. Como verdadeiros bárbaros, atacaram o animal e o abriram, atacando principalmente suas vísceras. Espetáculo indescritível, duro ate de ser presenciado. Ao termino da “festa”, o homem que agora permite que se veja todo o rosto. Um rosto marcado por enormes cicatrizes, lábios finos e um sorriso sarcástico, orelhas pontiagudas e os olhos meio puxados, caminha em circulo como se estivesse a refletir. Nesse momento todas as criaturas que o acompanhavam, se afastam deixando-o só. Ele caminha, olha para o alto, ajoelha-se e dá um ósculo na terra. deita-se e um fato intrigante começa a ocorrer: Seu corpo até então coberto por uma enorme capa vermelho-acinzentado, começa misturar-se com a terra. Ele entra na terra e a terra entra nele. essa interação permanece por um tempo difícil de ser contado em marcadores terrenos.
Passado esse tempo, o homem levanta-se vagarosamente, mostrando seu rosto aparentemente exausto. Parecia que tudo estava terminado quando ele começa a caminhar em direção ao arvoredo que dera sua  origem. Repentinamente, ele volta-se e pára ao clarão da lua que se fazia presente com todo o seu vigor. E começa a metamorfosear-se em varias imagens.
            Uma após outra, começaram a surgir formas humanas dos mais remotos tempos e muitas delas sendo completamente desconhecidas: A primeira lembrava um monge tibetano, com sua cabeça raspada e vestes próprias, ou seja, um grande manto que lhe cobria o corpo; a segunda surge com um olhar bravio e com todas as características do homem primitivo. Corpo peludo e muito forte fisicamente, urrava alto fazendo mover as folhas das arvores. Um terceiro surgiu como um membro da guarda romana, seu elmo, capa vermelha e a armadura que lhe cobria o peito denotavam um alto posto dentro dessa guarda. Um detalhe curioso, seus olhos vertiam lagrimas copiosamente.
A quarta figura que surgiu foi novamente a do homem primitivo, exatamente com as mesmas características anteriores. A quinta imagem surgiu onipotente em sua postura, porem pobre em indumentárias. Era um negro alto, forte. Trajava apenas uma “sandália” trançada ao longo da perna e usava também uma espécie de saia feita aparentemente de pele de onça. Em seu peito luzia um colar produzido de pedras que se encontravam com uma placa circular de aço, sendo que nesta placa alguns hieróglifos se destacavam á medida em que ele se movia. Portava em sua mão um enorme cajado todo trabalhado e em seu ápice trazia um circulo que continha um quadrado que continha um triangulo que continha um ponto. Via-se ainda que em sua cabeça, tinha uma espécie de faixa feita também de pele de onça que a envolvia completamente.
A sexta imagem a surgir foi novamente o homem primitivo. a sétima, no entanto era a mescla de um rei e a de um papa. ambas apareciam simultaneamente e não se firmavam. A imagem do rei era acompanhada de toda uma indumentária riquíssima. O destaque porem ficava por conta de seu olhar, vago, não transmitia nenhuma espécie de sentimento, nada que pudesse despertar o mínimo de ódio ou de amor. O papa surgia austero com toda a ornamentação que lhe era característica nos tempos medievais. Sua postura era a de quem manda e não pede, de quem julga, de quem decide. Olhar frio e com um brilho maléfico acompanhado de um riso deixando perceber um dente de ouro. A oitava e ultima aparição não foi a do homo-sapiens como podia se imaginar. surgiu como um nada, se é que é possível entender o nada como algo. somente uma voz povoava o ambiente. Ambiente que ainda era povoado pelas estranhas criaturas. As palavras emitidas ressoavam nas arvores, pedras, lagos ar e principalmente na terra e dizia: “Na origem, no principio de tudo, tive a benesse de partilhar da vida. Plasmei o que não existia. No mundo das formas eu vim para aprender e ensinar. Caminhei noites e dias nestas jornadas terrenas que vistes, porem, devido ao orgulho, a banalidade, a futilidade, o desejo pelo poder terreno, a deturpação de um saber que estava implantado, a entrega total aos desejos carnais e a todos os tipos de situações que não favoreciam o esclarecimento do espírito. Voltei a terra para ser novamente plasmado. Fiz uso do barco para atravessar o lago da morte. Uma vez lá instalado iria trabalhar para ascender novamente à escalada evolucionária. É certo porem, que na Terra deixei muitos vínculos, pesados vínculos que me invocam a todo instante. Aqueles mesmo que em um passado remoto os ensinei a manipular determinadas substancias em detrimento de outrem. Oh cegos, guia de cegos. Nem isso aprenderam corretamente. Estou preso a um carma que preciso resgatar e o farei. Trabalharei pacientemente até que minhas estruturas psíquicas estejam completamente restabelecidas e então poderei adquirir o direito de desfazer os equívocos cometidos. Até então, continuarei aceitando o que me ofertam por não ter a disponibilidade de manipular a verdadeira substancia benéfica”.
            Ingênuos são os ofertantes, pois quem diretamente se beneficia são as criaturas que me acompanham. Obedecem-me porem a elas estou ligado simbioticamente. Onde quer que eu esteja, lá estarão cobrando o que lhes prometi em passado não muito distante.  Quero apenas mencionar que esses tolos, que ofertam em qualquer lugar como aqui foi feito, só conseguirão atrair essa gama de seres que de positivo não trarão nada. E ai deles (os ofertantes), pois terão que trazer freqüente e rotineiramente essas ofertas às criaturas. Pelo caminho que vim, eu volto, fechando todas as porteiras. deixo apenas uma aberta, que é para aqueles que desavisadamente entrarem, possam, se o quiserem, sair. Pelo lago da morte, a caminho das almas que vieram do campo do pó, onde povoa a magoa e o ranger de dentes eu vou, na certeza de que terei de voltar, pois muitos ainda na minha estrada caminham. “se assim continuarem verão que o lume que trago em minha mão, é apenas uma ínfima demonstração daquilo que eles chamam de inferno e que fica em minha morada depois do lago da morte.”
            Depois de pronunciadas essas palavras, por instantes o ambiente ficou carregado de um silencio ensurdecedor. Um vendaval se processou, aglutinando todas as criaturas em um lote só e levando-as ao campo do pó. desfez-se a imagem do arvoredo, das pedras e do lago, surgindo então a imagem de uma encruzilhada de rua e no meio dela uma oferenda contendo um bode, com patas e pés decepados, um recipiente contendo pipoca, inúmeras garrafas de pinga, velas pretas e vermelhas em numero de quinze, tudo estava inerte aparentemente não tinham sido manipuladas. “No entanto, observando de perto se notava que estavam completamente ressecadas, tanto o bode como as pipocas assim como a pinga que estavam nas garrafas não tinha cheiro.”
            Tudo concluído, verifiquei se meu conga estava firmado e coloquei-me a dormir.
 
Revista UMBANDA – Uma Religião brasileira.
Nº 8 Setembro 85 pág 16, 17, 18
TRAÇO EDITORA LTDA

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